A perda

perdaParte 1

Perdi. Não sei por onde, mas perdi minha carteira. Senti um frio na espinha, uma coisa ruim, que só os desafortunados, como eu, que um dia já perderam a sua sabem como é. Falta-me um pedaço.
Havia ali alguns trocados, coisa pouca, papéis pessoais e de valor sentimental e meus documentos.
Ai! A foto da minha identidade. Alguém vai ver a foto da minha identidade! Já não lembro mais do talão de cheque, cartões do banco e de crédito. A minha foto na identidade. Anos e anos de enorme cuidado para que ninguém a visse, quando me pediam eu prestava toda atenção para que a foto ficasse para baixo. E agora assim de graça alguém vai vê-la, quer dizer, alguém vai ganhar os meus trocados para vê-la.
Sinto dó também de todos os pequenos detalhes da minha vida que eu carregava na carteira, bilhetes pequenos com frases gentis de amigos que não vejo mais com tanta freqüência. Eu gostava de rele-las, lembrava exatamente de quando as tinha recebido, para logo em seguida lembrar de mais histórias, o que geralmente me faz rir feito louca sozinha. Havia nela também alguns negativos de fotos de boas viagens e encontros divertidos com as amigas, em uma época que máquina digital não tinha chegado por aqui.
Eu posso falar também dos outros papéis, nem tão importantes, comprovantes de depósito, uma notinha da locadora com os últimos cinco filmes que eu vi – aliás, quem achou minha carteira: recomendo-os – uns papéis ultrapassados também, um contra-cheque de dois meses atrás, a carteirinha da faculdade e uma oração de Santo Expedito.
Minha carteira. Eu a perdi sei que a culpa é toda minha, mesmo que essa sensação de ter sido roubada insista em me rondar a cabeça. Alguém por ai pode estar vivendo a minha vida, imaginando histórias pras minhas fotos, distribuindo meus bilhetes.
Confesso: ainda estou pensando na foto da minha identidade. Eu não sei como esses fotógrafos conseguem tais proezas, sou eu ali, naquela foto, de tal forma que não me reconheço. No auge dos meus quinze anos, o cabelo em um tom de vermelho que nunca foi meu, vestindo uma blusa cafona ao extremo.
Mas eu peço, por favor, quem encontrou minha carteira ao menos os meus bilhetes e negativos, se puder me mandar pelo correio, tenho certeza que nela há também um papelzinho com meu endereço, recortado de uma correspondência da pós, por conter nele o novo CEP da minha rua, que ainda não decorei.
Estou um pouco consolada agora, acho que nunca vão me reconhecer por aquela foto.
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Texto antigo, porém inédito! 😉
Em breve a 2ª parte “Encontrei!”

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5 Comment

  1. Fernanda Fassarella says:

    Ah! Isso é bem gostoso de ler… não conhecia… inédito mesmo! E me lembra um texto do Drummond (se não me engano ºº), mas ao contrário, porque ele acha uma bolsa, em vez de perder… Você tem mesmo uma visão diferente dos fatos. E eu fico babando… hehehe

    Beijo

  2. Melanie Brown says:

    Como uma pessoa consegue ser tao poetica falando da perda de um objeto?!Logo carteira que todo perde a toda hora por aí! (eu nun ca perdi -_- )Tá lindoO , adorei!!
    Da-me a receita??!! :d
    -'ParabensS-'

  3. Se perdesse minha carteira pagaria recompensa para me devolverem o desenho da Anja Judi (foi você ou Fereza que fez??). Bons tempos que carrego comigo, num pedacinho de papel, que vale mais que todo dindim da carteira, talão de cheques e cartões.
    Beijos e saudades.

    Juldis

  4. Larissa Dardengo says:

    O desenho foi a Fereza que fez..e eu tenho a “anja Léris” até hoje também.. ^^

  5. aparecida/ professora says:

    Larissa,

    Que fôfa!….continuas linda por fora e por dentro também.Lindo quando fala na vó com tanto carinho.Entendo bem o que é isso, pois também tenho uma santa bem pertinho de mim.minha doce mãezinha .Capaz de se doar inteiramente a todos que a rodeia,de querer tomar para si as nossas dores, nossas angustias,de ligar todos os dias para saber como estamos e sentir na nossa voz que estamos tristes.E as suas palavras de consolo são capazes de aliviar as angustias mais intensas.É assim a minha Rosa.Capaz de se despetalar inteira por todos.
    Seu quarto parece um santuário.Tá sempre rezando por alguém.

    Larissa, continue cuidando com carinho das pessoas que a rodeia .Deus estará sempre te abençoando. Beijos da tia Aparecida
    do agostinho Simonato.

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