A Rotina – do dia.

De pé embaixo de uma árvore espero. São sempre 8:10h quando ele vem, nunca atrasa, nunca se adianta, esta pontualmente de acordo com a hora marcada no meu celular. 8:10h. O letreiro luminoso indica o destino: Liceu via Rodoviária. Entro e dou bom dia ao motorista, não que eu seja assim tão simpática é que tive a sorte, ou não, do motorista ser morador antigo do bairro e amigo do meu pai. Um sorrisinho meia boca pro cobrador (ou trocador, depende de onde você é) que retribui com um bom dia às vezes emendando uma observação sobre o tempo enquanto eu passo pela roleta (ou catraca, mais uma vez, depende de você ), me dando tempo só de concordar com um sonoro e curto “é”. Ando até quase o final do ônibus, antepenúltima cadeira, aquela onde duas janelas bem abertas se encontram. O ônibus está vazio, pego ele no segundo ponto (ou parada…).

Levanto o óculos de sol para que façam as vezes de uma tiara, impedindo que minha franja caia no olho, tiro de dentro da bolsa meu livro, abro na página marcada pelo post-it – eu realmente não sei onde foram parar todos aqueles marcadores de páginas que eu tinha – começo a ler, tenho uma margem de segurança de mais 4 ou 5 pontos sem que ninguém se sente ao meu lado e me distraia com seu cotidiano.

Vez ou outra um amigo de infância ou adolescência aparece bem ali no ponto seguinte, sem que eu tenha nem conseguido abrir o livro, não me dando tempo de fingir um “não vi você”, sorrio, a pessoa se acomoda ao meu lado, olho desolada para outros quase 30 lugares desocupados e espero que ela puxe uma conversa. Quase sempre querem atualizar a conversa de 5 ou 10 anos em uma viagem de 30 minutos.

Quando quem senta ao lado é estranho, faço o possível para não tirar os olhos do livro. Quase sempre, apesar do sol escaldante, o vento que entra pela janela é fresco. Vez ou outra um jovenzinho tem um celular com um funk incompreensível sendo tocado a toda altura, quase sempre o mesmo senhor reclama da música dizendo “ninguém merece tal coisa na segunda de manhã” (variante de acordo com o dia). Todas as terças e quintas uma senhora entra no ônibus dando bom dia a todos, de cadeira em cadeira, até ocupar seu lugarzinho lá no fundo, perto da porta, “mais fácil pra quando eu for sair”, anuncia pra um ou outro que diz “senta aqui minha senhora”. Uma menina que senta mais a frente e parece nunca conseguir se arrumar completamente em casa tem tic-tacs no cabelo que vão sendo soltos durante o percurso e uma bolsinha cheia de maquiagem. Eu queria saber passar rimel como ela sabe enquanto o ônibus enfrenta um asfalto esburacado. E assim o ônibus vai sendo totalmente ocupado, pessoas em pé, gente que dormiu “mais que a cama” e ainda tem o rosto inchado, vizinhas que se atualizam com os acontecimentos do bairro, gente que só se conhece do ônibus e conversa trivialidades do dia-a-dia.

Normalmente eu estou de bom humor de manhã, principalmente se consigo ler. Eu sou do tipo: “Não me faça muitas perguntas antes das 9h”. Eu preciso daquele café quente e forte assim que chego à agência. Preciso ver que não tenho nenhum e-mail “urgente da última hora de coisas pra ontem”, mandado no dia anterior 2 minutos depois d’eu ter ido embora.  Preciso só que o começo do meu dia seja meu, só meu. Introspectivo. Me permito sair por ai mais sorridente se tenho sonho bonito, esperando chegar logo no trabalho pra contar pro namorado.

A rotina das manhãs não me cansa, o despertador não me assusta, principalmente quando posso adiá-lo por mais 1 hora. É o dia que me irrita, é a volta pra casa que me atormenta, mas isso já é outro caso.

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4 Comment

  1. Bruno Scopel says:

    A curiosidade que a gente desperta de simplesmente enchergar você nessas cenas e passa a imaginar suas reações e expressões… 😀

    Eu também tenho uma rotina rotina e ela nem é tão divertida e digna de um texto.

    E também não sou nada agradável antes das 9hrs tb não. Com exceção a quando estou com você, que faço questão de te dar bom dias sorridentes e alegres salpicados de beijinhos felizes x)

    =***********

    Amo demais! x)

  2. Bom, como não há possibilidades de encontrá-la nestes caminhos matinais, não há perigo de aborrecimentos durante este processo… rsrsrsrs…
    Mas claro, posso aborrecê-la nos demais horarios!
    uhauhauhahua

    Beijo grande moça… Ótimo texto, como sempre!

    P.s. Ve se arruma um tempinho para conversarmos qualquer hora!

  3. Se eu te conto minha rotina matinal vc morre… hahuaahuahua

    Gostei do texto. O cotidiano pode ser admirável.

    Escreve mais =*******

  4. Ei filha!! Mais um texto lindo…Vc tem um dom maravilhoso de transformar seus pensamentos em textos tão criativos…fiquei curiosa ( ou diria, até, preocupada) com o que te atormenta na volta pra casa…espero que seja a viagem…rsrsrs…Bjão..Te amo…

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