Achei!

no pontoDespercebida da hora, sem me notar atrasada, atendi o telefone. Era um rapaz que se apresentou como André e já me adiantou que eu não o conhecia.

Na verdade eu nem tive tempo de lembrar se conhecia ou não algum André, mesmo não tendo a menor idéia de como teriam meu número e porque estariam me ligando, fiquei só no “oi” e esperei pelo que viria.

Foi então que ele disse: “Eu achei sua carteira”. Meu coração veio na boca e eu só tive uma certeza:  Ele viu a foto da minha identidade. Mas que saci!

Disse que a encontrou próximo ao meio fio, descendo a rua da faculdade.

Pois não havia de ser em outro lugar. Como eu não havia pensado nisso? Minha bolsa é enorme e eu tenho  a terrível mania de revirá-la enquanto ando e converso, sempre atrás de alguma coisa, balas, meus óculos, as chaves de casa.

No dia mesmo em que a perdi, eu descia pro ponto de ônibus  conversando  com uma amiga e procurava dentro da bolsa os meus óculos, lembro até de dizer a ela que precisava deles pra não ter que pedir ajuda no ponto. Eu sei, é triste ter de admitir, mas eu não leio destino de ônibus sem meus óculos, e é ainda mais triste, pra lá das 22h, suja, cansada, com fome, ter de ser simpática com alguém, só pra não perder o ônibus.

Mostrei-me aliviada e agradecida pela atitude dele. Ficou combinado assim: as 20h, em frente a biblioteca, ele me devolveria a carteira.

O que era normalmente simples: me vestir pra ir a faculdade, se tornou um drama. Eu precisava de certa forma, aliviar o impacto daquela foto.  Perdi alguns minutos imaginando o tal André: meu salvador, meu herói.

De pé em frente a biblioteca, com 2 amigas a uns 3 metros de distância, platéia é muito importante nessas horas, eu vi um rapaz se aproximar.  Até então eu achava praticamente impossível que o tal André me reconhecesse, até então, quando ele sorriu pra mim.

Eu quis fazer alguma piada sobre o quão distraída sou, pra perder a carteira, mas me lembrei que sou péssima em piadas, assim como sou péssima em conversas triviais, deixei ele falar.

– Acho que isso é seu.
– É verdade. Quem bom que achou e se propôs a me devolver.
– Acho que você faria o mesmo.
– Talvez. – E sorri. Minha ironia sempre me colocando em situações complicadas.

Ele disse qualquer coisa sobre ter que pegar um livro e eu disse qualquer coisa sobre estar com fome.

Agradeci já com a minha carteira na mão e não esperei que ele se afastasse.

Não me preocupei de imediato em revirar a carteira pra ver se estava tudo no seu devido lugar. Vi quando o André saiu da biblioteca e fiquei satisfeita ao imaginar que, depois de me ver pessoalmente, ele teria certeza de que aquela foto não passava de uma mera falta de técnica por parte do fotógrafo.

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Esse texto é a continuação do A perda

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4 Comment

  1. Bruno Scopel says:

    É claro que fotógrafos deformam as pessoas. É óbvio. É tão óbvio, que em um dia você está morena, no outro está loira. Tudo depende do fotógrafo. Ou da tinta.

  2. E aí, sua carteira estava intacta?
    Faltou alguma coisa nela?

  3. marcus says:

    Super-André!
    (Mas ficou a curiosidade… estava tudo lá?)

  4. Ei… sempre que venho falo a mesma coisa, sobre como adoro chegar aqui e ver sua visão particular das coisas transcrita nessa página. Ou melhor, a sua capacidade de descrever as sensações tão bem, tirar de dentro da alma e colocar aqui, em forma de palavrinhas. Essa coisa de ter que ser simpática depois de um dia inteiro de trabalho e estudo, suja, cansada e escabelada, ah, como isso me ocorria, e nunca consegui parar pra pensar a respeito e muito menos pra escrever! Você deixou muito clara essa dependência que a gente que usa óculos tem do resto do mundo pra conseguir pegar o ônibus certo. E eu adoro ter você pra poder me dizer isso! Obrigada! Beijos

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