Casual

ouvir falar tipo 3Tenho tido diariamente, meus momentos de solidão planejada. Almoço sozinha e dificilmente fico fazendo hora para voltar ao trabalho.
Ontem resolvi criar para mim um novo hábito. Ainda na mesa bebendo o restinho de Coca, busquei dentro da bolsa o livro que estou lendo. Fiquei por ali uns bons minutos acompanhando Clarice Lispector na sua narração profunda de “A Paixão segundo G.H.”, eu sabia que deveria me preocupar com a hora, eu sempre me perco no tempo quando me dedico à leitura.
Eu pouco pude reparar ao redor, havia muita conversa, uma televisão ligada mostrando alguma competição das Olimpíadas. Falas, mastigação, risos, esbarrões. Duas vezes eu desviei os olhos do livro, a primeira quando percebi que alguém estava parado bem na frente da minha mesa com uma bandeja na mão, fiquei apreensiva por um momento achando que era alguém que vinha me dizer para largar de besteira e dar espaço para os outros comerem, pois se fosse assim eu teria que mostrar meu meio copo de Coca e dizer que ainda não havia acabado. No entanto era um rapaz, apesar de socialmente vestido exibia uma barba que provavelmente o acompanhava há umas boas semanas. Perguntou se podia se sentar, já que todos os outros lugares estavam ocupados, eu assenti com a cabeça, dei um pouco mais de espaço para ele, aproveitei para olhar em volta, vi uma mesa vazia do outro lado, olhei de novo pro rapaz sem entender e voltei a olhar pra mesa vazia, então percebi que para chegar a mesa ele teria que passar por uma senhora que guerreava com garfo para alimentar o filho. Voltei pra leitura temendo qualquer tipo de assunto, não sou boa em conversas casuais. Não pude evitar. O rapaz num gesto gentil perguntou que livro era aquele, eu respondi aproveitando para lhe mostrar a capa (caso houvesse dúvida) me informou que nunca leu, mas que estava lendo “Cem anos de Solidão” do Gabriel Garcia Márquez, foi minha vez de dizer que não havia lido e de o ver me olhando admirado. Pensei que algo mais viria, mas não. Talvez ele esperasse que eu falasse qualquer coisa adiante, mas emudeci e nem ler conseguia mais, os berros sufocados da mãe com a criança me desconcentravam, os risos exagerados dos estudantes na mesa ao lado me irritavam. Guardei o livro.
Ele percebeu o desconforto, pediu desculpas, disse que não queria atrapalhar minha leitura, sorri disse que não havia problema que estava mesmo na minha hora. Num gole só tomei o resto da Coca, ele sorriu e disse: “Se você gosta de Clarice deveria ler ‘A hora da Estrela’ ”, eu não sei porque ele sentiu a liberdade de me fazer uma indicação.
Emudeci e quase me levantando, descansei o corpo na cadeira novamente. Percebendo meu interesse, ele sorriu, talvez feliz por ter conseguido me prender mais 5 minutos na mesa.
De repente tudo era silêncio, já não escutava os berros da mãe, os risos escandalosos dos adolescentes, era só aquele rapaz falando de literatura, falando de Clarice, pra no instante seguinte falar de Lewis e mudar para Proust, passando por todos os variáveis e escapulindo para temas perdidos e histórias lembradas. Eu sorria e concordava ora piamente, ora duvidosa, e discordava de alguns pontos com certa timidez, de alguns outros com grande fervor. Acho que foi então que a mãe e os adolescentes se desconcentraram do seu mundo e começaram a notar a gente, incomodaram-se e foram indo embora. E eu sentia a falta de algo pra beber, e ele já havia terminado o almoço há um bom tempo.

O tempo, o tempo que sempre me perco quando começo a ler, hoje foi gasto de forma diferente. Agradeci a companhia, levantei, paguei a conta e fui embora.

Nada de compromissos firmados, nada de a gente se vê.

Foi só uma boa conversa na hora do almoço.

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Texto antigo. Nota-se pelo “uma televisão ligada mostrando alguma competição das Olimpíadas”.
Terminei a “Paixão Segundo G.H.”, li “Cem anos de solidão”, só não li ainda “A hora da Estrela”.

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6 Comment

  1. Caetano says:

    Cem anos de solidão é ótimo!
    Clarice também é, sempre é.
    solidão é bom de vez em quando.
    jovens numa mesa de baderna não é bom nunca.

    passar por aqui é sempre muito bom!

    um beijo, querida

  2. Fernanda Fassarella says:

    eba! ele saiu do forno! adoro isso. eu gosto de conversas casuais de rodoviárias, restaurantes e bancos de praça. muito bom isso. beijos

  3. Fernanda Fassarella says:

    e quando você transcreve essas conversas casuais fica ainda mais lindo. =)

  4. Mauricio Camargo says:

    Se Rubem Braga pudesse ler isso, ficaria orgulhoso! concurso de cronicas da academia cachoeirense de letras, se encerra no fim desse mês! concerteza vc irá se dar bem! Parabéns Lala!!

  5. Parece início de história de amor…hahahahaha

  6. Camila Sanches says:

    Oi! Tô passando pra conhecer…
    Muito bom seu texto!
    Ele prendeu minha atenção o tempo todo e quando acabei de lê-lo abri um sorriso satisfeita.
    Parabéns!

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