Gosto de Infância

figos de amorSe tem uma coisa que me leva de volta pra infância é doce de figo com pudim. As pessoas que me conhecem hoje podem até achar estranho, porque eu não sou a que mais come essas delícias, isso se deve ao fato de que um figo verdinho cheio de calda e um pedaço de pudim me fazem lembrar de muito mais coisas da infância do que a Betânia¹ poderia imaginar.

E convenhamos, não é sempre que podemos suportar o peso da saudade que as lembranças de uma infância tão bem vivida trazem a tona.

Na casa da vó havia 3 ou 4 figueiras no quintal, e a tradição do doce de figo com pudim, começava desde pegar o figo no pé. A vó reunia os netos, cada um ganhava um potinho, desses reaproveitados de manteiga, e a gente ia feliz e descalço colher figos.

O quintal da vó era enorme pro de uma casa em bairro populoso. Mesmo morando há uns bons anos na cidade a vó mantinha um galinheiro cercado por tela, e lá dentro dele tinha uma goiabeira, que mais parecia poleiro de galinha. Foi nessa goiabeira que eu e meu irmão curamos nossas verrugas. A gente implica com o Ninho até hoje, que de tanta verruga no joelho ele quase derrubou a goiabeira batendo com a faquinha².

Em baixo da casa também tinha a antiga oficina do vô, que depois passou a ser do tio, e um sótão cheio de ferramentas e morcegos, que a gente gostava de assustar, só pra sair correndo de medo. Tinha lá também um banheirinho, que era muito disputado pelas crianças na hora do banho. Era um banheiro com chão de cimento lisinho, sem pia, tinha um sanitário e um chuveiro que jogava na gente água direta da rua. Banho ali só frio. A porta era, e se não me engano ainda é, de 3 madeiras pregadas juntas, disformes, tortas, poídas e cheias de limo.

A descida pro quintal era escorregadia, e sempre que chovia a vó gritava “cêis não vão lá embaixo que cêis vão cair ai e quebrar o nariz”, a gente sempre ia, nem que fosse até a metade do caminho pra pegar uns moranguinhos plantados em uma bacia.

Na colheita dos figos nunca foi declarado nenhum tipo de competição, mas o que não tinha forças pra tirar os figos do pé sempre olhava com tristeza pros potinhos abarrotados dos outros.

Com os figos nos potinhos era a vez das mulheres ocuparem a cozinha. A família sempre foi muito grande. A vó e o vô tiveram 12 filhos e uma penca de netos que se espalhavam pelos cômodos da casa nos natais e aniversários. Ficava pras tias e noras o preparo dos pudins, mas a vó sempre fazia um também. Eu acho que ela adorava ouvir os homens dizerem “o pudim da Santa ficou melhor”. A vó é mesmo uma santa, mas isso já é outra história.

No final havia em cima da mesa coisa de 4 a 5 pudins cozidos e uma bacia enorme de doce de figo.

A gente comia enquanto brincava de passar anel na sala e ficava escutando a risada abafada das mulheres na cozinha e o riso exagerado dos homens a mesa.

A vó fazia uns doces de deixar criança apaixonada. É de ficar com os dedos lambuzados só de lembrar.

E eu não sei porque, nem ao certo quando foi, que a gente cresceu e a vó envelheceu, as figueiras foram cortadas, o galinheiro acabou e até o lodo da descida pro quintal sumiu.

Desde então comer doce de figo com pudim nunca mais foi a mesma coisa.

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¹ Betânia foi – e ainda é – minha primeira boneca. Está guardada lá em casa, nas alturas do guarda-roupa. Perdeu o vestido xadrez-verdinho e hoje usa apenas um maiô. De vez em quando ela desce lá das alturas e faz a alegria da uma prima miudinha que tenho.
² A simpatia pra acabar com a verruga que a mãe ensinou: Procura um pé de goiaba. Com uma mão você aponta a verruga e com a outra você usa uma faca para dar um cortezinho na goiabera. Pronto. Só não pode mais comer goiaba daquele pé.
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*Beijo e apertão de bochecha (que toda criança odeia) nos primos que cresceram comigo: Felipe, Nilton, Wanessa, Emin , Marília, Alê, Ludmila e Ludson. Beijo pros outros primos que já eram crescidos demais nessa época, mas que viveram na casa da vó momentos tão bons quanto esses nossos.

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8 Comment

  1. Fernanda Fassarella says:

    Eu lembro quando esse texto era só uma frase solta nos emails. Ficou lindo, ficou com gosto de infância mesmo! Os potinhos de manteiga e os pés descalços, o limo no caminho do quintal… ah, que saudade que dá de ser criança! Beijos

  2. APENDICITE says:

    Parabens larica, ficou mto bom o texto.

    🙂

    na casa da minha voh rolava mta comida tb uaheuaeh lembrei aki agora…o coisa boa!

  3. Caetano says:

    saudade de ser criança é nostalgia boa.
    Sinto fallta das coorerias de Alegre, pasto, férias longas, menina da Kombi… muito bom!

  4. Flávio Borgneth says:

    Também sou grande admirador de árvores. Mês passado fiz força política para renovarmos aluguel do apartamento. Eu sei que ele não tem varanda, mas tem uma arvore que mora na janela dos quartos. Agora só falta aprender a comer doce de figo…

  5. Flávio Borgneth says:

    Oi `vizinha`, fiquei grato pela visita. Também virei cliente das tuas frutas. Bj e até!

  6. lala cris says:

    Meu Deus, coisa boa demais, infância.
    Saudades eternas da minha, do tempo de subir na arvore, de correr no quintal da vóvó de fazer tudo que criança gosta.
    Seu texto me fez lembra muita coisa boa, adorei tudo, voltarei mais vezes.

  7. lala cris says:

    E a propósito, vou te indicar no meu blog tá!

  8. […] de mais e mais coisas do meu passado, da minha infância. Como quando escrevi sobre o poder dos figos na minha vida e por diversas vezes lamentei não […]

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