Mulheres modernas


Domingo à tarde. Bar do Tuca.

Vendo ali aquelas garotas eu me pus a avaliar minha vida, meus gestos, falas e decisões.

Elas eram todas jovens, entre seus 20 e 25 anos, bebiam – como eu – riam alto e conversavam a respeito de alguns garotos e algumas festas. Eu estava duas mesas ao lado, com amigos. O assunto entre elas atingiu um grau que tomou toda a atenção da nossa mesa.

Em pouco menos de 3 minutos eu tive a feliz constatação de que  estou longe de ser uma dessas moças de 20 a 25 anos, apesar da idade similar. Isso me fez muito bem. Ao meu lado um amigo lamentou em um murmúrio quase inaudível “mulheres modernas, que merda”.

Otávio é desse tipo poeta que não escreve, ele adora uma festa e bebe muita cerveja, gosta de mulheres que bebem também, que vez ou outra soltam um palavrão, que não fazem o tipo fresca diante dos homens, mas também não chegam a ser ogras e escrotas. Em uma cotovelada discreta sobre a mesa eu trouxe Otávio de volta a realidade. Acho que meu sorriso fez com que ele soubesse que eu havia escutado o lamento.

– Bicho, custa muito nessa vida uma mulher que preste?
– Hãã.. valeu?! –  falei entre risos.
– Não é que..  a mulher lutou tanto pra se igualar ao homem que.. Conseguiu. Ai hoje a gente fica assim, sentando aqui bebendo esperando que uma dessas malucas queiram algo com a gente. Que merda.

Eu ri imensamente e procurei logo uma caneta na bolsa pra anotar aquelas filosofias baratas e bêbadas do Otávio. Foi quando ele disse o elogio mais bonito que eu já recebi:

– Você sim – e apontou pra mim – você é como as mulheres que se faziam antigamente.
– Submissa? – mais risos
– É.. só que bêbada. Idiota. Você sabe ser divertida e é inteligente. Você fala num tom bom, só sua risada é alta, o que acaba sendo bem divertido. Você lê livros, mas não gosta de falar sobre eles, o que não faz com você seja uma chata Cult nojentinha. Você ouve música boa e ruim também, Deus sabe lá porque. Você bebe e fala mil vezes mais quando está bêbada, ficando mil vezes mais engraçada. Você manda o carinha se fuder se ele acha que é gostoso só porque tem um carro, mas tem a incrível capacidade de chorar quando se apaixona. Você..
– Vai se ferrar Otávio.

Sim.. A maior defesa contra o constrangimento é a ofensa.

O fato é que fui pra casa imaginando viver como antigamente. Me imaginei de saia godê na altura dos joelhos, cinto marcando a cintura e blusa sem mangas com gola alta, os cabelos mais curtos e o bom visual dos anos 60 me agradou. Me imaginei jovem e ativa, literária, nada disposta ao casamento por interesses familiares. Eu seria presença certa em cafeterias, me vi no meio de grandes jovens, futuros homens que contribuiriam com a cultura. Eu beberia em público sem me importar com a escassez de pretendentes devido meu comportamento pouco feminino pra época.

E talvez numa dessas noites de bar, um homem me notaria e comentaria com amigos: “Essa aí é moderna demais”.

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8 Comment

  1. Bruno Scopel says:

    Fato. Mulheres modernas, principalmente “da capital” são poodles podados com lacinhos na cabeça.

    Se eu estivesse na mesa, falaria:
    “- Sim Otávio, custa muito achar nessa vida uma mulher que preste. Algo em torno de 25 anos, dependendo da procura.” ^^D

    E é a dica que eu sempre dou para amigas: Se os pretendentes são escassos, é sinal de que “o homem ideal” está mais próximo do que nunca. Se os pretendentes são muitos, se prepare. A “escolha” fica mais difícil, a margem de acerto diminui bastante. ^^D

    “Apareça pouco, mas apareça certo.”

    Belo texto amor =*

  2. Rodrigo says:

    Bem vinda de volta!! Adorei!

  3. Ainda bem que eu nao bebo né Lari???
    rsrs
    Bruno disse: “são poodles podados com lacinhos na cabeça.” Também nao uso lacinhos na cabeçaaaaaa!!
    UhuUuUulll!
    Adorei o texto.
    Bjos x)

  4. I-ra-do-!-!-!

    Tai, a cada texto publicado aqui, o nivel profissional se eleva!
    Também me vejo nos anos 60, eu e meu violão de baixo de uma janela fazendo uma serenata para a mulher amada, mandando flores e namorando no portão… Tempo bom!

    Parabéns menininha, parabéns!

  5. Léris, Tinha que ser um Otavio…
    Lindo texto, como sempre.
    Saudades sua. Beijos, baranga.

  6. Ei! Eu achei ótima sua colocação sobre as mulheres modernas. Esse exagero feminino de hoje é mesmo uma chatice!

    Maaaas… antiguinhas ainda existem, sim! Ainda que estejam escondidas por trás de unhas vermelhas. Esses Otávios aí é que estão procurando em lugares errados… ehehehe

    Beijos! Adoro sempre!

  7. Aline Patriarca says:

    Olá,

    Gosto muito dos seu textos e me identifico muito com eles, você têm um dom com as palavras … e pela descrição do Otávio, é uma pessoa maravilhosa e muito interessante.

    Parabéns e continue não sendo um ‘poodles podados com lacinhos’, muito mais legal ter sua própria opinião e não fazer parte do senso comum…

    Obrigada pelos textos!

  8. Olha… eu só li esse até então e to apaixonada.. hahuahuahuahua
    Vou ler todos. JURO!

    Beijo!

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