Passangers e a romantização do relacionamento abusivo

Essa resenha contém spoilers, pois minha insatisfação precisa ser explicada.

 

Começo dizendo: que decepção. Não que eu achasse que Passageiros (Passangers) seria um grande filme, como o marketing do estúdio tentou nos vender, mas eu tinha esperanças de que, mais do que um sci-fi, ele fosse um bom romance com dois atores super cotados e elogiados em Hollywood.

A história: 5 mil pessoas estão a bordo da nave Avalon em direção a um novo planeta que será colonizado pela Terra. A viagem de ida leva 120 anos, por isso, passageiros e tripulação estão em câmaras de hibernação e irão acordar somente 4 meses antes da nave chegar ao novo planeta: Homestade II. Porém uma colisão durante o trajeto faz com que o mecânico Jim Preston (Chris Pratt) acorde 90 anos antes da data prevista.

Jim fica sozinho na nave durante 1 ano inteiro, até que um dia ele esbarra na câmara de Aurora (Jennifer Lawrence) e pensa: meudeus que mulher linda. Começa então o stalker. Jim passa a assistir todos os vídeos disponíveis de Aurora e fica nessa obsessão durante “longos” 4 meses, enquanto estabelece um luta íntima e moral sobre acordar ou não sua ~bela adormecida~.

Aí amigos, é ladeira abaixo.

Acho que Aurora não deve ter sido um nome acidental, ou uma daquelas felizes coincidências. Se no clássico da Disney o príncipe salva a princesa de uma situação de risco e abandono, aqui nosso “herói” faz exatamente o contrário: condenando a protagonista a uma vida sem futuro, presa ao lado do único homem acordado dentro daquela nave imensa. “Ah mas fala sério, é o Chris Pratt”, essa também deve ter sido a argumentação do diretor/roteirista para vender a história. Que mulher não ia querer ficar presa em um nave cheia de luxos com o Chris Pratt?

Mesmo ele roubando sua história e seu futuro. É o Chris Pratt! E se fosse o Danny DeVitto? Será que essa romantização escrota (estou exaltada) também iria funcionar? Todo mundo ia achar lindo e romântico? HUUUUUM

E caso você ainda não tenha entendido o que aconteceu aqui, sim, Jim acorda Aurora. Ele sabota a câmara e faz ela despertar 89 anos antes do que estava previsto. O cara que até então estava completamente transtornado porque iria MORRER na nave, sem conseguir chegar ao seu destino, acorda uma pessoa, condena-a ao mesmo futuro que o seu, porque se apaixonou por ela. Aqui, além de decepcionar profundamente, a história torna-se o mais previsível que poderia ser. Não é preciso pensar muito pra saber que o que veremos a seguir é: Aurora se apaixona por Jim. Depois de tempos felizes ela descobre a verdade. Eles brigam. Fazem as pazes. Vivem felizes. Fim.

Mas vamos lá, Aurora acorda, fica transtornada com sua situação, se compadece de Jim, porque C-O-I-T-A-D-O ele ficou acordado 1 ano inteiro sozinho aqui e pronto, tá feito o casal.

O que me incomoda é que, em 5 mil pessoas, ele esbarrou em uma e decidiu: é essa, porque ela é tão bonita, me apaixonei, somos perfeitos um para o outro. Se ele tivesse passado um ano descobrindo as histórias dos outros passageiros (em momento algum o filme dá a entender que ele fez isso, ele só passa muito tempo tentando acessar a área da tripulação, sem sucesso, para conseguir ajuda), talvez ao invés de acordar a escritora gostosona que NADA poderia fazer para tirá-los daquela situação, ele teria encontrando um engenheiro, um outro mecânico, alguém que pudesse ajudá-lo a entender as falhas apresentadas pela nave (tem isso ainda! A nave está entrando em colapso, mas o importante mesmo é ter uma mulher bonitona ao seu lado 😉 ), que essa outra pessoa fosse uma mulher bonita também, a própria Jennifer Lawrenve, ok, mas alguém que pudesse ajudá-lo a consertar a câmara e voltar a dormir, ou ao menos tentar. Não ele acorda Aurora porque se apaixonou por ela.  

Depois de passarem UM ANO apaixonados Aurora descobre a verdade, através de Arthur, um android barman que tem sido a companhia/amizade deles ao longo dessa viagem, porque nem contar a verdade sobre o que aconteceu Jim foi capaz de fazer. Ela fica loka do c* e se afasta dele, e o que  ele faz: dá espaço? Pensa: Ainda faltam 88 anos, talvez uma hora a gente se acerte? NÃO… ele usa o sistema de áudio da nave para dizer suas desculpas, forçando a mulher a ouvir suas explicações. Em determinado momento ela chega mesmo a dizer que o que Jim fez foi assassinato, ele a condenou a uma vida de solidão e a morrer no esquecimento.

Então finalmente alguém da tripulação acorda e o que ele pode fazer por Jim e Aurora: basicamente nada, além de oferecer sua pulseira de identificação para dar a eles mais acesso às dependências da nave e aliviar a barra de Jim com Aurora dizendo a seguinte frase:  “quem está se afogando sempre leva outro consigo”.

Quem nunca leu um título de notícia que dizia: “Por ciúme, marido mata a esposa”, “Inconformado por ser rejeitado, ex mata a companheira” e etc? E o cara me aparece pra fazer cara de “poxa que vacilo meu amigo” e tentar melhorar pra gente a imagem do maluco dizendo: ele estava transtornado e apaixonado? Faz me um favor, meu senhor.

única expressão possível para esse filme

Enquanto isso temos uma personagem feminina reduzida a alguém superficial e mimada. Em certo momento descobrimos que Aurora está ali para viver uma aventura, ela pretende viver só um ano em Homestade II e depois embarcar de volta para a terra onde escreverá um livro sobre sua experiência, ela seria a primeira pessoa a fazer algo do tipo. Enquanto o motivo de Aurora para abandonar a terra é revelado, nunca descobrimos a motivação de Jim de deixar família e amigos para trás, talvez para manter  o ar “misterioso” do herói que tem tudo sobre o controle, enquanto ela se descontrola nas situações de risco, dizendo que não sobreviveria sozinha na Avalon sem seu herói Jim Preston, “se você morrer eu morro”…. e a resposta dele: “Aurora temos 5 mil pessoas nessa nave”… Então a vida das 5 mil pessoas importam agora, mas a da mulher que você stalkeou e tirou o futuro, não? Meudeus, alguém segura na minha mão que nessa hora eu só queria que esse filme acabasse logo.

Eu não sei nem se esse romance se encaixa na síndrome de estocolmo, mas não deu pra engolir. Todas as tentativas de redimir o personagem de Pratt não foram suficientes pra mim, porque no fim, Aurora ainda estaria condenada a viver para sempre com ele.

Entendo quem gostou do filme e se emocionou com esse romance, porque normalizar crimes “passionais” é o que nossa sociedade faz de melhor hoje, então em determinadas situações a gente não sente ou não percebe o que está errado em certas situações, e coitado, ele faz tantas coisas para se redimir e parece tão arrependido, como não perdoar e amar? Não amando.

Depois que Jim acorda Aurora não havia muito o que fazer para me convencer de que algo bom sairia dessa história.

 

Nota: 2/5

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3 Comment

  1. […] Passenger – Nota: 2 / 5  (Resenha aqui) […]

  2. Ficou incrível a sua análise. Essa semana li um post do Não Me Kahlo que falava sobre esse mesmo problema na sequência 50 Tons de Cinza… Essa romantização de relacionamentos abusivos. Ver a mulherada suspirando por histórias como essas é muito triste e mostra como o machismo desgraça a cabeça das pessoas.

    1. Ei Fê, obrigada pelo comentário 🙂
      Eu li esse post da Não Me Kahlo, realmente é muito contundente o machismo e o abuso na história, confesso que (qdo li os 3 livros) não enxerguei todos os problemas apontados por ela, apesar de ter me incomodado bastante com a história. É sempre bom a gente conseguir refletir sobre essas coisas 🙂

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