Perdidos

Ilustração de Mariana Valente

Quis ficar um pouco mais, sentar por ali, respirar, olhar em volta, mas achou por bem ir logo. Deu três passos e antes que desse o quarto olhou para trás, nada. Estático sentiu um peso enorme nos ombros, todas as dores de não ter insistido um pouco mais voltaram e elas estavam todas ali, sobre seus ombros. Arqueou a cabeça para um lado, depois para o outro, disfarçadamente soprou pros lados enquanto mentalmente repetia como um mantra “eu fiz o que pude”. Os ombros pesaram mais, sentiu os pés afundando, o corpo sendo abandonado de cansaço, de desânimo, de tristeza.

Hesitou por alguns segundos, quis voltar, foi engolido pelas pessoas que caminhavam de um lado pro outro. Estranho, há poucos segundos era como se só ele existisse, como se toda a gravidade do planeta tivesse somente ele para exercer toda sua força. Olhou rosto por rosto, atravessou olhares, nada, ninguém ali poderia compreender o que ele sentia, o que ele vivia, ao menos era o que acreditava.

Um baque nas pernas, em frações de segundos achou que ali era o momento derradeiro, ia cair. Ia cair e não haveria ninguém para socorrê-lo. Mas não houve queda, nem mesmo dor, só encontrou uns olhos perdidos sujos de lágrimas, que se converteram em uma boca aberta e num choro sonoro. Atordoado, olhou em volta mais depressa em busca de ajuda, nada, ninguém.

Ajoelhou-se segurou as mãozinhas bem pequenas e sussurrou um “calma”. Irônico, ele ali, dizendo a alguém “calma”.

– Onde estão seus pais?

Suspiro, lágrimas, beiço..
-Perdi
-Calma. – Já disse isso (reprimiu-se), repetiu pra si mesmo “Calma” – Qual o seu nome?
– Pêdo
– Ei Pedro, não chora tá? A gente encontra eles.

Ergueu-se olhou em volta, nada. Por Deus seria possível perder uma criança? Teria sido deixado? Era melhor mesmo alguém aparecer. O menino consolado já não chorava, mas segurava com muita força a sua mão. “Medo de perder-se de novo”, pensou. E retribuiu segurando mais forte a mão do menino. “Medo de me perder de novo”, admitiu.

E vinda, não se sabe de onde, a mãe chegou puxando a criança pro seu colo e entre beijos e abraços no pequeno olhava para ele e repetia insistentemente “obrigada”. Encabulado ele sorriu acenando com a cabeça. De cabeça apoiada nos ombros da mãe e sem lágrimas, só se via o sorriso gigante de dentes minúsculos de Pedro e a mãozinha arqueada num gesto de adeus.

Em dias, aquele foi o primeiro sorriso realmente grande que deu. Deixou que seus dentes se afastassem num largo sorriso, mas a mão só levantou um pouquinho, o suficiente para um adeus desajeitado.

Olhou ao redor, o fluxo das pessoas indo e vindo continuava. Olhou o portão do prédio uma última vez. Apanhou a mala no chão e caminhou, sem hesitar dessa vez, sem olhar para trás.

Uma vida bem pequena havia lhe mostrado que não importa o quão perdido se esteja, um dia a gente se encontra ou acaba sendo encontrado.

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6 Comment

  1. Bruno Scopel says:

    Que óóóótimo ter você de volta escrevendo essas maravilhazinhas, meu amor!

    “Pêdo”… hioeahoieahoieaohi
    owwwwwwwn!

    Perfeito.

    É tão gostoso ler. É tão gostoso te ter.
    Não para de novo, tá? =***********

  2. que coisa fofa!

    tem dom mesmo você hein, lari!
    adorei!

    =)

  3. Ahhhh, quase chorei por causa do Pêdo, por causa do texto; por me sentir assim perdida, fui caindo e me encaixando perfeitamente na sua descrição. Obrigada!

    Beijos!!!

    PS: Antes você me mostrava os textos e depois publicava. (Snif) Eu te cortei o coração alguma vez na vida, foi isso? hahahahaha Tô brincando.

  4. Eba, texto novo!

    Você descreve de uma forma tão boa de ler os sentimentos… E ficou aberto, né? Não dá pra saber porque ele sofre ou o porque dele ir embora, ou quem ele espera ver qdo olha pra trás.. =)

    Escreve mais =*

  5. Adoro ler seus textos…Lindos…A Mari tem razão, escreve mais para nos dizer alguns “porques”…Bjão
    Te adoro.

  6. Lembro-me que, quando criança, me perdi. Senti calafrios, dores misteriosas e, é claro, veio muito choro. Ainda bem que fui encontrada por um anjo qualquer que se compadeceu do meu lamento… Sem contar as inúmeras vezes nas quais nos encontramos perdidos por ai, durante toda a vida…
    É bom ler e se identificar com a leitura.
    Obrigada pela visita em meu humilde blog. Fiquei super contente! 🙂
    Aproveitei e te adicionei na minha lista de blogs de amigos.
    Um beijo!

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