Re-post : Santa

Eu pensava que o apelido da vó era resultado de um nome que pouca gente sabe falar, apesar de simples e lindo: Omaria (lê-se Omária). Sempre que alguém lia o nome dela era como se exclamasse Maria: Oh Maria!

Quando a gente era pequeno e ria a mãe olhava de lado, torcia o nariz e logo se apressava em corrigir a pessoa: “É Omaria, mas todos conhecem como Dona Santa”

Pois a vó é mesmo uma Santa. Não essas de igreja que enfeitam altar, apesar de ser por isso o apelido. Foi o bisavô que começou a chamar ela assim, quando ela era ainda bem pequena, olhando pra ela, ele sempre tinha a ternura de dizer “cê parece com aquelas santas lá da igreja, de tão bonita que é”.

A vó é Santa de tanto amor que doou aos outros, e deve ser assim mesmo que são nomeados os santos, pelo cuidado exagerado, pela doação ao próximo e pela alegria que sentimos quando estamos em sua companhia.

A minha Santa Omaria é santa forte! Santa que carregou na barriga 12 filhos e ajudou a criar mais de 40 netos, santa que hoje chama os bisnetos pelo nome dos netos, as filhas pelo nome das irmãs e tem saudades do “companheiro” que já se foi há bastante tempo.

É santa filha, irmã, amiga, tia, madrinha, esposa, mãe, vó e bisavó.

É santa de encher os olhos de graça, que perfuma a casa inteira quando sai do banho, santa que adora fazer arte, comer doce escondida, cutucar crianças que estão quietas. É santa de cabelo branquinho e fofo feito algodão, e de muitas, muitas pintinhas nos braços.

É santa e se incomoda por não andar mais sem a ajuda de alguém, santa porque depois de 85 anos resolveu que não quer dar trabalho. Santa que fala da vida com sorriso gostoso e que vez ou outra quer juntar as coisas, colocar na charrete e ir embora pra casa dela. A Santa já está em casa, faz tempo que está em casa, mas não é essa que ela gosta. Ela quer a outra, a perdida no interior de Jerônimo Monteiro, a casa grande, de janelas grandes e quintal extenso.

Foi a Santa que me disse que namorar é bom, mas casar é muito melhor. Foi a Santa que guardou segredo muito sério e só contou quando as filhas já estavam todas crescidas, casadas e vividas, tudo isso para dar um bom exemplo. Como se o peso desse apelido, por si só, já não fosse um exemplo de vida.

Eu não tenho dúvidas que existem outras mães e vós Santas por ai, mas a minha vó Santa é santa desde menininha.

“Eu cresci e convivi com uma Santa”

Pouca gente pode afirmar isso e eu sou uma dessas poucas pessoas.


A vó Santa morreu no último sábado (06/03/10) aos 85 anos. Ela tinha Alzheimer em estágio avançado. Foi a primeira vez que eu beije aqueles cabelos branquinhos dizendo “bença vó” e não tive como resposta nem ao menos um olhar.
Re-publicar esse texto é a última homenagem que eu posso fazer a Santa que foi exemplo de força e vida pra uma família inteira.

Nós amamos você Vó.

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10 Comment

  1. Brno Scopel says:

    “Vai lá amor, dá um beijo na sua vó, se despede dela.”

    “Beijou?”

    “Beijei…”

    “Vi vc falando… vc falou o que?”

    “Eu pedi ‘Bença, vó.’ ”

    “…. :~~ “

  2. puxa, que triste. =/
    só posso mandar força pra você e pra sua família.

    um beijo.

  3. Emy Dardengo says:

    Filha, obrigada por essa homenagem. Realmente foi um momento muito triste…é um monólogo, falamos, falamos…e nada…só ouvimos o soluço e a dor sufocando nosso coração. Te amo muito.

  4. Tsc.. Nunca sabemos o que dizer nessas horas.
    Espero que seu coração encontre logo o conforto.

    =*

  5. Poxa Léris 🙁
    Fiquei triste…
    Grande beijo pra vc.

  6. Eu já tinha lido, ia comentar, mas fiquei sem saber o que escrever. Bela homenagem.
    As lembranças boas são as que ficam, né?

    Abraço!

  7. Bruno Scopel says:

    Vai atualizar o blog mais não, gatinha? x)

    Precisamos dos seus textos gostosos! =D

    =****************************

  8. giugava says:

    Moça, linda homenagem, meus sinceros parabéns e sentimentos.

    Mas uma triste coincidência, mas ainda assim uma coincidência.
    Minha avó faleceu também neste inicio do ano.

    Tristezas que, infelizmente a gente têm que conviver e também delas tentar aceitar e extrair o melhor de nossas lembranças.

    Grande beijo!

  9. […] Com os figos nos potinhos era a vez das mulheres ocuparem a cozinha. A família sempre foi muito grande. A vó e o vô tiveram 12 filhos e uma penca de netos que se espalhavam pelos cômodos da casa nos natais e aniversários. Ficava pras tias e noras o preparo dos pudins, mas a vó sempre fazia um também. Eu acho que ela adorava ouvir os homens dizerem “o pudim da Santa ficou melhor”. A vó é mesmo uma santa, mas isso já é outra história. […]

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