Resenha – A Cidade Murada (Ryan Graudin)

Sinopse:

A Cidade Murada é um terreno com ruas estreitas e sujas, onde vivem traficantes, assassinos e prostitutas. É também onde mora Dai, um garoto com um passado que o assombra. Para alcançar sua liberdade, ele terá de se envolver com a principal gangue e formar uma dupla com alguém que consiga fazer entregas de drogas muito rápido. Alguém como Jin, uma garota ágil e esperta que finge ser um menino para permanecer em segurança e procurar sua irmã. Mei Yee está mais perto do que ela imagina: presa num bordel, sonhando em fugir… até que Dai cruza seu caminho. Inspirado num lugar que existiu, este romance cheio de adrenalina acompanha três jovens unidos pelo destino numa tentativa desesperada de escapar desse labirinto.

O que eu achei:

Esse foi um daqueles livros que eu comprei por ter sido altamente influenciada pelo canal Geek Freak. A resenha dele sobre esse livro é tão apaixonada que eu pensei “não tem como dar errado” e não deu. Ryan Graudin construiu uma narrativa rica e bem amarrada ao longo das suas 400 páginas.

A trama é narrada do ponto de vista de 3 personagens: Dai, um garoto assombrado pelo passado, Jin, uma garota esperta que se passa por um rapaz para sobreviver as ruas da cidade murada e Mei Yee, uma jovem que foi vendida pelo próprio pai para a prostituição. Eu realmente AMO livros que são narrados de diferentes pontos de vista, sinto que, dessa forma, acabamos sempre nos conectando mais com os personagens, um bom exemplo disso são os livros das Crônicas de Gelo e Fogo, do George R.R. Martin, num livro você detesta um personagem, mas no livro seguinte, ao ver a história pelo ponto de vista dele, entender suas motivações e sentimentos, a coisa meio que muda de figura, isso é fantástico e mostra como o autor consegue conduzir o leitor pela história.

É claro que a trama de Graudin é menos cheia de armadilhas do que a de Martin, mas a complexidade de cada personagem está ali. Além disso, a história é dividida em capítulos que fazem uma contagem regressiva: Dai tem 18 dias para completar uma missão e sair da cidade murada, a medida que o tempo, e os capítulos, vão passando somos pressionados mais e mais para dentro da sujeira e dos crimes que acontecem neste local, os acontecimentos são crescentes, e aos poucos o autor nos entrega mais um detalhe ou outro sobre o passado do trio, que, ao se encontrarem ao longo da história não percebem como estão profundamente ligados uns aos outros.

A cidade é um personagem à parte, chamada de Hak Nam, ela quase cria vida com as descrições de Graudin, é impossível não se sentir claustrofóbico com suas pequenas vielas e a esparsa luz do sol que quase nunca atinge o chão, graças ao apinhado de prédios tão altos e próximos uns dos outros. A chuva constante que insiste em cair deixando tudo úmido e com cheiro de mofo e os cheiros diversos e misturados que vem do comércio local que, com imensas panelas, cozinham e vendem comida nas vielas e becos da cidade.  Diverso também é seu povo, parece ser regra que em Hak Nam quem está nas ruas está entregue a marginalidade e ao crime, isso se você for um rapaz, é claro, as meninas estão distribuídas nas várias casas de prostituição de Hak Nam, este é o único destino para elas, o bordel, ou a morte. Entre crimes, drogas, violência, prostituição, medo, abandono e destruição galgamos aos poucos uma história de sobrevivência como poucas.

No virar das páginas, cresce nossa expectativa para descobrir o que Dai procura dentro da cidade murada, o que ele fez para estar ali e quem o mantém nessa posição. Também cresce nossa empatia por Jin e Mei Yee, numa torcida emocionada para que elas possam ter destinos melhores do que aquele que lhes foi entregue.

A medida que se conhecem e passam a se importar mais um com outro, Dai, Jin e Mei Yee mostram como é complexo confiar e se conectar com pessoas quando tudo o que receberam de volta da vida foram uns sopapos e indiferença. Três personagens tão jovens que estão aprendendo a encarar o mundo de uma forma diferente, sem a solidão que lhes foi imposta e, claro, sonham com o dia que irão atravessar os muros da cidade murada e voltar para a luz.

 

Curiosidade: A cidade murada de Ryan Graudin é baseada em um lugar real, conhecido como Kowloon, um “bairro” densamente povoado localizado em Hong Kong, mas que não fazia parte da cidade, ou seja, não existia um governo para ele. Em 1987, a cidade murada de Kowlloon tinha cerca de 33 mil residentes dentro de seu território de apenas 0,3 km². De 1950 até a década de 1970, foi controlada por tríades e tinha altos índices de prostituição, jogos de azar e uso de drogas. Em janeiro de 1987, o governo de Hong Kong anunciou planos para demolir a cidade. Depois de um árduo processo de despejo, a demolição começou em março de 1993 e foi concluída em abril de 1994. O Parque da cidade murada de Kowloon foi inaugurado em dezembro de 1995 e ocupa a área da antiga cidade murada. Alguns artefatos históricos do local, incluindo construções yamen e restos de seu portão sul, foram preservados. Foi considerada a maior favela vertical da história. (Fonte: Wikipedia)

 

Kowloon, em Hong Kong
visão aérea de Kowloon, em Hong Kong

 

Nota: 4/5

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