Resenha – The Handmaid`s Tale

The Handmaid’s Tale é uma série do serviço de streaming HULU e foi umas das grandes vencedoras do Emmy 2017, conquistando os prêmios de Melhor série dramática, Melhor atriz em série dramática, Melhor atriz coadjuvante em série dramática, Melhor atriz convidada em série dramática, Melhor direção em série dramática e Melhor roteiro em série dramática. Tá bom pra vocês?

Ela também é uma das minhas séries favoritas dos últimos meses e confesso que enquanto pesquisava imagens para ilustrar esse texto voltei a ficar emocionada/indignada com a história. Então aqui teremos muita gritaria, pois um hino desses meus amigos, merece!

Vocês estão prontos?

Vamos pelo começo: The Handmaid’s Tale, ou O Conto da Aia, como ficou a tradução em português, é uma distopia que se passa nos dias atuais nos EUA, que agora se chama Estado de Gilead.

O que aconteceu no mundo? Por causa da poluição e dos inúmeros métodos contraceptivos usados pela população o número de natalidade diminuiu drasticamente, bebês vivos e saudáveis são raros agora, uma grande maioria da população se tornou estéril e as mulheres e homens que ainda podem gerar bebês nem sempre tem a garantia de que a criança resistirá a gravidez e ao parto, podendo nascer com má formação ou pior, não sobreviver. Ou melhor: as mulheres tornaram-se estéreis, já que falar em um homem estéril é proibido em Gilead.

Não sabemos exatamente como os outros países estão lidando com essa crise, pois a história é contada pelo ponto de vista de uma Aia, o que sabemos é que o exército, ou algo do tipo, derrubou o senado, anulou a constituição, assumiu o poder e teve uma grande ideia (sic):

RISOS DE NERVOSO

 

Logo no começo da história somos apresentados a Offred, uma mulher fértil que foi “transformada” em aia, é através de sua narração, relembrando sua vida e refletindo sobre sua atual situação, que somos guiados por essa história que, quase sempre, é devastadora.

Tendo sido separada brutalmente do marido e da filha, Offred é entregue a família de um comandante, que recebe essa nomenclatura não necessariamente por suas atividades militares, mas por sua posição política no atual governo. Offred não é seu nome verdadeiro, mas sua designação, ele é exatamente o que sua tradução literal quer dizer: Of Fred, de Fred, o nome do seu comandante.

A série é incrível e acho que roteiristas e diretores fizeram um trabalho maravilhoso de adaptação da história, pode ser uma coisa minha, mas como li o livro depois de ter visto a série do HULU, acabei preferindo a série, por ser mais rica em detalhes e diálogos, mas principalmente por trazer a luz a história de outras mulheres, outras aias, e não apenas a história de Offred a qual ficamos “presos” no livro, já que, por lei, as aias não podem confraternizar entre si ou com outras pessoas, não podem ler livros ou jornais, ou mesmo assistir TV, tornando-se basicamente ignorantes do mundo ao redor.

O Estado de Gilead é teocrático, ou seja baseia-se em religião. Eles escolheram umas passagens na bíblia que falam sobre submissão e procriação e usam-nas para “justificar” o que está sendo feito. Mensalmente a aia passa pelo ritual de fecundação (desculpe, não lembro se o nome é exatamente esse), e então, na cerimônia (pois tudo é muito cerimonial, para não existir a imagem ou a intenção do pecado) é lida a passagem bíblica que diz que Rebeca entrega sua criada Bila para que Abraão tenha filhos com ela, e assim Rebeca receba os filhos como sendo seus. E o que eles fazem é recriar isso, da forma deles, nos dias atuais.

É desesperador, dolorido e infelizmente possível de acontecer em algum lugar do mundo. Aliás, estados teocráticos já existem e sabemos que a posição das mulheres nestes não é das melhores, e o conservadorismo, mesmo aqui no Brasil, parece ir cada vez mais de encontro a um Estado que deixaria de ser laico, já que a bancada evangélica usa tantas premissas da “permissão de Deus” para aprovar ou desaprovar projetos e leis.

Ouvindo o podcast Mamilos sobre a série, as meninas iniciaram uma discussão muito interessante que mostra, mais uma vez, por que The Handmaid’s Tale é tão atual e tão relevante, em uma das cenas quando os homens no topo do poder discutem o que fazer, um deles diz: “nós não devíamos ter deixado que elas estudassem, agora elas pensam que podem tudo”(sic), como se todas as conquistas das mulheres, não fossem conquistas e sim espaços cedidos pelo homem, e como foram cedidos, essas liberdades, direitos e autonomias podem ser facilmente retirados, o que nesta história, de fato acontece. E mais: qual a dúvida de que, para garantir a sobrevivência da humanidade, algumas pessoas (homens e mulheres, pois mulheres estão diretamente relacionadas a criação das novas leis de Gilead) não concordariam ser esse o único caminho? Aquele necessário para o perdão divino para o que “nós” causamos? Recomendo muito, quem já viu a série, ouvir esse podcast, vou deixar o link aqui no final do meu texto.

Uma das partes que mais mexeu comigo foi quando as mulheres começam a perder os seus direitos, e June (a nossa Offred) tem sua conta no banco bloqueada e o direito de movimentação do dinheiro passa para o seu marido, ela ainda, veja bem, tem o seu emprego, mas não pode mais administrar sua própria conta, desesperada/revoltada ela desabafa com Luke que diz “deve ser algum problema simples ou temporário”, “eu tenho acesso, não se preocupe, irei cuidar de você”, e na real, o tempo todo a história tenta mostrar Luke como um bom homem, um cara com a cabeça aberta, que tenta o tempo todo proteger sua família, mas como a história também já nos mostrou muito do que aconteceu com June, é doloroso ver que, apesar de tudo, ele também não compreendia como de pouco em pouco ela estava perdendo tudo e como essas “pequenas” coisas e autonomias eram fundamentais, como June/Offred diz: tudo aconteceu aos poucos, eles não estavam prestando atenção, aos poucos seus direitos e liberdade foram completamente anulados, e mesmo Luke, seu companheiro, não pode fazer nada para ajudar.

Aliás isso é um dos pontos mais legais da série/livro, como eles ficam indo e voltando entre presente e passado, pois quando começam tudo o que sabemos é o que está acontecendo agora com Offred/June, os flashbacks são fundamentais para entendermos não apenas como ela chegou até ali, mas o que aconteceu no país como um todo.

Uma das principais diferenças entre série e o livro é que na série conseguimos nos aprofundar mais na história de outras mulheres, como eu disse anteriormente, como as histórias da Offglen, da Janine e da Moira, outras três aias que tem histórias muito interessantes e ricas, que não são exploradas no livro, por conta do seu estilo narrativo.

O livro porém explora melhor os outros “níveis sociais” do Estado de Gilead, com as  Ecoesposas, mulheres que já eram casadas pelas “leis do senhor”, porém com homens que não estão no governo, como a série não mostra essas mulheres, fica difícil entender qual é exatamente a função delas, mas pelo livro entendemos que elas seriam o que hoje conhecemos como “donas de casa”, porém, por todo o universo criado, acho difícil acreditar que é apenas isso. Na série e no livro, conhecemos também as Marthas, mulheres viúvas, divorciadas e/ou que não podem gerar filhos e são designadas para casas de comandantes para limpar e cozinhar. Além disso, o livro tem uma pegada histórica, e apesar de eu preferir a série, recomendo muito a leitura! Ele foi escrito em 1985 e consegue ser incrivelmente atual e tem um final surpreendente, indo um pouco além do que a série nos mostrou em sua primeira temporada.

A série é realmente um caso de amor na minha vida, a fotografia é incrível (aquelas), os diálogos, os monólogos de Elisabeth Moss como Offred, é tudo muito bem escrito e dirigido, você consegue sentir o desespero da personagem pelo olhar, você sabe que apesar da submissão ela está a ponto de ter um treco. E apesar do foco da história ser muito nela, é muito, MUITO, legal ver que o sistema não é ruim apenas para as Aias, mas para todos, dificilmente alguém é beneficiado por ele, a esposa do comandante, o motorista, o próprio comandante, todos estão desconfortáveis com a atual situação, mesmo aqueles que participaram ativamente para que as coisas ficassem como estão. Será que eles não imaginavam como o “sonho” seria na realidade? Será que não existe nada que eles possam fazer para re-verter a situação? Em determinados momentos dá até mesmo pra ficar com um pouquinho de dó deles, mas passa rápido 😉

E claro, na série/livro é possível entender muito melhor todo esse sistema e seus personagens, alguns que eu não consegui citar aqui. Assistam e depois me contem o que vocês acharam! E se você já viu, por favor, me conta o que você achou!

 

Minha nota para o livro: 4/5

Onde encontrar:
Skoob

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