Sobre saudades e cidades

Há aquelas pessoas que ao saberem que sou de Cachoeiro de Itapemirim vem logo com suas frases prontas, cheias de entusiasmo, preconceito e pouco conhecimento me dizerem que sou do interior, vim da roça, que a cidade é quente como a porta do inferno e feia de se olhar.
Quando questiono quantas vezes estiveram lá e por quanto tempo, muitas me dizem que apenas sabem disso por terem ouvido falar, nunca se quer colocaram os pés e se lá estiveram nem o pé no asfalto quente colocaram, a cidade só estava no seu caminho. Outros é claro, são de lá, moraram muito ou pouco tempo.
Me limito a concordar com cada palavra dita pela pessoa. É verdade, Cachoeiro é interior, assim como todas as outras cidades que não fazem parte da “Grande Vitória”. É de conhecimento, creio eu internacional, que Cachoeiro é um dos lugares mais quentes do mundo – pelo menos assim sinto quando estou por lá – e dizer que a cidade é feia não deveria ser afronta pra ninguém, porque essa é infelizmente uma verdade inegável.
Há sim muita coisa bonita escondida por lá, principalmente pelo seu interior (interior de interior ao qual chamamos roça). A resposta mais ríspida que costumo dar para encerrar o assunto é o que li em algum lugar que graças as inúmeras fontes que temos hoje não me recordo: falar mal de uma cidade é como falar mal de uma mãe, devemos nos limitar a cuidadosamente falar somente sobre a nossa. E muita pouca gente tem motivos pra falar mal da própria mãe.
Eu gosto de Cachoeiro, mas não sei dizer os motivos. Vivi lá toda a minha vida, talvez esse seja o maior de todos. Foi lá que fiz a maior parte das amizades que carrego comigo. E apesar da vontade de ir embora ter chegado junto com os meus 16 anos e ter só se concretizado aos pés dos meus 24, nada tenho a reclamar da cidade. É quente sim, mas por lá já teve até torre que fazia chover. É interior sim, e tínhamos o privilégio de estar a 30 minutos da praia, 30 minutos das montanhas frias. E é feia mesmo, inegavelmente como já disse. Lembro sempre de passar pela Jones dos Santos Neves triste pela poeira das pedras do mármore que cobriam os matos dos morros, os comércios, as casas. Mas era essa mesma poeira que me acariciava a alma quando depois de uma chuva a cidade inteira tinha um leve cheiro de terra molhada.

Não imaginava que eu poderia sentir tanta falta de um lugar quanto já senti da minha cidade no pouco tempo que estou fora. E que engraçado dizer isso, saudade de uma cidade, quando na verdade quero dizer saudade das pessoas que lá deixei, dos lugares que não vou mais todos os dias, dos bares em que não me sento, até daquelas mesmas pessoas conhecidas de “vista” que me cansava de ver em todos os lugares que ia.

E a saudade ainda dói. De cada paralelepípedo daquela rua onde morei a vida inteira, da casa que cresceu comigo, do lugar que muita gente insiste em criticar, as vezes sem conhecer, as vezes porque simplesmente não soube colher nada de bom.

Eu prefiro sempre ver o lado bonito dos lugares por onde passo e das pessoas que eu conheço. Espero que você também.

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6 Comment

  1. Que texto mais lindo.
    Quanto sentimento!
    Brilhante, Larissa. Brilhante.
    😉

  2. sou daquele tipo de cachoeirense que não suporta ouvir alguém falando mal daqui sem ter conhecimento.
    entendo bem o que significa o bairrismo cachoeirense, não digo que morro de amores por esta cidade, mas fale mal para ver…
    como sempre você desperta alguma coisa em mim toda vez que leio.

    beijos

    1. Até o bairrismo me irritou por uns tempos Dani. Mais irritante pra mim do que ouvir alguém falando mal da cidade era ver quem a defendia apesar de tudo e todos.

      Hoje eu conservo meu bairrismo de uma forma “saudável” huahuauha
      Tem um monte de coisas que me dão orgulho em ser daí, mas tem muita coisa que me envergonha também, não escondo nenhum dos lados.

      Esse discurso de “melhor lugar do mundo” não me convence. É realmente uma ótima cidade e eu viveria ai tranquilamente, mas tendo outras opções eu vou me permitindo ir ali e aqui e reconhecendo que existem lugares tão bons quanto.. =)

  3. Concordo com cada palavra dita. Já morei em vários cantos do país e quando passei minha infância em São Luís/MA, por exemplo, e ouvia pessoas dizendo que nordeste era tudo seca, que todo mundo era burro, pobre e sem oportunidade, me sentia fula da vida porque grande parte das pessoas que diziam isso nunca tinham ido em qualquer cidade nordestina. É claro que lá há algumas características dessas, mas são em rincões isolados, em determinadas áreas, e não em todo o canto, entende?

    A mesma coisa quando morei em Cachoeiro, quando as pessoas agiam por preconceito, dizendo que a cidade era isso, era aquilo, sem ao menos conhecer o lugar. Acredito que só se pode falar mal – e bem – daquilo que se conhece. Se não se conhece, é preferível ficar quieto.

    Enfim, e saudade bate assim no peito, sem explicação… Às vezes por determinada lembrança, às vezes por simplesmente se ter saudade. Como tenho saudade de Cachu, do seu calor infernizante, das ruelas, da proximidade dos bairros, de andar no centro da cidade e ver muitos rostos conhecidos, sem necessariamente conhecer pessoalmente, mas só de vista. Essas possibilidades inerentes a uma cidade pequena, mas que é nossa, que se viveu e se sente falta.

    Abs.

  4. Suelen Giacomele says:

    A gente só entende o real valor de Cachoeiro quando sai de lá. Sentimos falta de tudo, até do disse-me-disse característico de cidade pequena. Da moda copiada e, por que não, da originalidade das pessoas. A gente sente falta porque lá éramos livres. Sabíamos onde ficava tudo e ia de olhos fechados por todas as ruas, sem medo. Cachoeiro faz falta na mesma proporção de sua feiúra, que, para nós, cachoeirenses torna-se até bonita, na proporção de que olhamos de fora e com ternura. Que saudade da minha cidade!

  5. Cris Montheiro says:

    Que texto mais lindo! Emocionante!

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