Um guaraná

Nariz afinado, olhos pequenos e profundos, que sorriam muito mais do que a boca. Cabelo pretinho, bem menininho, agarrado a mão do pai todos os sábados pela manhã eles iam até o bar do Paulo.
Ele se sentava numa mesinha, o pai ia até o balcão. Uma cerveja. “Quer alguma coisa?” e o menino da cadeira no meio do bar, os pezinhos balançando no ar, respondia timidamente “um guaraná”. Mas era sempre a mesma coisa. Era só o ‘seu’ Paulo vir lá do freezer com a garrafinha verde na mão e o menino murchava todo, desanimava, perdia o gosto pelo refrigerante. Ações imperceptíveis pro pai. Difícil era ele entender porque nunca conseguia o refrigerante que queria. Canudos coloridos escolhidos a dedo tomava o guaraná, olhava os rapazes nas mesas ao lado e esperava o pai pra ir pra casa.
Escola, bola na rua, amigos e mais uma semana passava, mais um sábado chegava e lá ia ele novamente com o pai até o bar do Paulo.  Um grupo de amigos tomava refrigerante e era o refrigerante dele. Hoje era o dia. O pai no balcão, ele em pé do lado. “uma cerveja, e pra você?”, “Eu quero um guaraná”, ‘seu’ Paulo se afasta e quando volta traz a garrafa verdinha, maldita garrafa verdinha, mordeu o lábio, se avermelhou todo, pegou fôlego e a voz miudinha saiu sem que ele se desse conta: “mas eu não quero essa, eu quero o guaraná pretinho”, silêncio. ‘Seu’ Paulo e o pai do menino se olham, o pai se abaixa e tenta entender: “Guaraná pretinho?”, “é pai, igual o dos meninos ali”, “ah, você quer uma Pepsi?”.. “ééééé”..
“Pepsi, então é esse o nome? Pepsi..” e repetiu algumas vezes pra memorizar.
Recebeu nas mãos  a sua primeira garrafinha de Pepsi e com os dentes branquinhos todos amostra bebeu feliz, não apenas por ter conseguido o que queria, mas porque dali pra frente seria esperto o bastante pra não ter que beber mais do guaraná verdinho.
—-
*Texto para Bruno Scopel. O menininho fofo que achava que todo refrigerante se chamava Guaraná.

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7 Comment

  1. Bruno Scopel says:

    🙁

    Eu tive uma infância triste mesmo…
    Eu achava que “guaraná” significava “refrigerante”.

    Sempre me davam o guaraná verdinho… o guaraná pretinho nunca me davam? PORQUE?

    Porque Guaraná era uma coisa, Pepsi era outra

    #(

    amoooooooor, adorei a surpresa x) haiehieaioheahooeahi
    acho que vai ter mais história minha que vai vir pra cá então. Oh céus x)

    =***********************************************
    te amo muito! VEM LOGO! o/

  2. Muito bem contada a história. Mas eu prefiro o Guaraná (risos).

  3. “Pipoca na panela, começa a arrebentar, pipoca com sal, que sede que dá…”. Lembrei-me no ato da leitura neste jingle que, creio eu, é que nem chiclete: gruda na cabeça e não sai nem por reza! Mas é uma delícia!
    Linda a história. Adorei!
    Beijinhos! 🙂

  4. Ah gente.. que fofo!

    O programa favorito da minha família é reunir todo mundo e re-lembrar histórias da nossa infância. Meu pai e minha mãe adoram contar como eu, meu irmão e irmã davamos trabalho… huahuahahhuauha

    Beijo =*

  5. Ivie Scopel says:

    Ora ora… vc me pediu a foto.. era pra ilustrar esse texto ne? Eu esqueci de te mandar… Que lástima!
    Mas eu tbm sofria do mesmo mal. O problema é q depois que descobri q guaraná nao era pepsi nunca mais quiz a bendita guaraná! =/

  6. HUAUHAUHAUHAUHHUAHUAHUAHU
    adorei!!!
    Era por isso que pediu suco de uva aquela vez Bruno??
    Queria mesmo era uma coca cola né?!?!
    huahuahuahua

    Ficou ótimo Lari…
    muito talentosa vc!
    Parabéns

    =*

  7. mto bem escrito, lari!

    de fato, você é o orgulho do bruno scopel, né?

    🙂

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